Mercado laboral

O que os números do desemprego jovem escondem em Portugal

A taxa oficial de desemprego jovem pode estar a subestimar as dificuldades reais de quem tenta entrar no mercado de trabalho português.

Jovem português a rever um anúncio de emprego num portátil num café em Braga

O que a taxa de desemprego não diz sobre os jovens portugueses

Em março de 2024, a taxa de desemprego jovem em Portugal situava-se nos 20,1%, de acordo com o Eurostat — quase o dobro da média da União Europeia, que é de 11,4%. Mas este número, por si só, subestima a dimensão do problema. A definição oficial de “desempregado” exclui quem não está a procurar ativamente emprego — e em Portugal, uma proporção significativa de jovens entre os 18 e os 24 anos saiu do mercado de trabalho, não por escolha, mas por desânimo ou por ter emigrado. Segundo o INE, a taxa de NEET (jovens que não estudam, não trabalham nem estão em formação) foi de 12,3% em 2023, uma das mais elevadas da Europa Ocidental. Esta população invisível não aparece nas estatísticas de desemprego convencionais. Além disso, os jovens que trabalham enfrentam condições precárias: contratos a termo certo, estágios remunerados abaixo do salário mínimo e subemprego — situações em que a qualificação é superior à exigida pelo posto de trabalho. O INE estima que, em 2023, cerca de 35% dos jovens trabalhadores com licenciatura exerciam funções que não requeriam esse nível de habilitações.

Diferenças regionais e setoriais que a média apaga

A taxa de desemprego jovem não é uniforme em todo o território nacional. No Alentejo e no Interior Norte, os valores ultrapassam os 25%, enquanto a Grande Lisboa e o Algarve apresentam taxas mais próximas de 15%. Esta dispersão reflete diferenças estruturais profundas: o Interior viu partir uma geração inteira para as cidades e para o estrangeiro, deixando para trás um mercado de trabalho com menos oferta qualificada e menos diversidade setorial. No Norte industrial — onde o Infopointz tem acompanhado de perto a evolução — o setor têxtil e calçado emprega ainda uma fatia significativa dos jovens com menor escolaridade, mas oferece salários que raramente ultrapassam os 1.000 euros mensais brutos. O setor tecnológico e de serviços partilháveis cresceu nos últimos anos em cidades como Braga e Porto, criando oportunidades para licenciados em engenharia e informática, mas sem resolver o problema para a maioria dos jovens que não transitou para esse perfil. A questão central não é apenas criar mais empregos, mas criar empregos com condições que tornem viável construir uma vida em Portugal — e os dados sugerem que, para muitos jovens, essa equação ainda não fecha.